Publications Languages: Brasil Dansk Deutsch English Espanol Farsi Finnish Francais Greek Hungarian Italia Japanese Latvian Polish Portuguese Svenska
 
This is the official website for Nicotine Anonymous World Services. Any unauthorized website using Nicotine Anonymous' name and providing information, opinions, literature or outside links to other websites are not and have not been approved by Nicotine Anonymous World Services.
cialis
Return to Menu
 

PARTE I:
A nossa História
Todo dia começava igual. Ansiedade, cansaço, falta de energia, tontura, ressaca, entorpecimento . . . e um irresistível e quase imediato desejo de nicotina. O que normalmente tirava a maioria de nós da cama era a sedução da nicotina, a não ser pelas vezes que tínhamos que dar nossa primeira tragada antes mesmo de encontrarmos forças para levantar. Depois da primeira "dose", sentiamo-nos armados e prontos para encarar o dia.

A média de idade com que iniciamos este ritual insano era de 16 anos. Desde então, e até pararmos, a nicotina afetou literalmente cada minuto de nossas vidas. Mesmo quando dormíamos, a droga estava se movendo em nossa corrente sanguínea, mudando nossos padrões de respiração, alterando nosso ritmo cardíaco, remodelando nossos sonhos, e preparando-nos para a primeira "dose" do dia seguinte.

A nicotina era parte de todas as nossas emoções. Independentemente do sentimento ou da necessidade percebida, a nicotina estava lá. Cansaço, medo, ansiedade, raiva - lá estava a nicotina. Alegria, contato social, a leitura de um livro - lá estava a nicotina. Bebendo, dirigindo, escrevendo, falando ao telefone, assistindo TV, nos intervalos de cursos e depois de comer - lá estava a nicotina. A qualquer hora do dia, em qualquer situação, com quem quer que estivéssemos, a droga estava conosco, estava grudada em nós, parecendo totalmente adequada e necessária.

A nicotina era a nossa mais próxima e sempre presente companheira. Mesmo as cores e formas das embalagens da forma de apresentação que escolhessemos - cigarro, charuto, cachimbo, fumo para mascar, rapé -  confortava-nos. Os anúncios não conseguiriam nos enganar, dizíamos. Entretanto as marcas eram escolhidas de acordo com nossa sensação - manipulada pela mídia e por truques promocionais - de que nos tornariam mais sofisticados, mais femininas, mais masculinos, mais parecidos com uma celebridade qualquer - mais parecidos com alguma imagem, fantasia ou fuga que estivéssemos aspirando.

Nossa amiga, nossa aliada nossa companheira constante. A força que fazia nos mexermos no começo da manhã, que nos amparava durante o dia e nos capacitava a seguir adiante, e que depois estava presente para nos satisfazer à noite. Nossa companhia nas maiores alegrias e nas mais profundas tristezas. Todas as coisas o tempo todo, e sempre confiável. Como poderíamos deixar de amar nossa nicotina?

Entretanto o romance tinha seus problemas. Embora tivéssemos refutado o que nossos pais nos disseram - que fumar poderia atrapalhar nosso crescimento - não podíamos questionar os sintomas fisicos que gradualmente começaram a afetar quase todos nós. Nem a evidência científica, gradualmente erigida, de que a nicotina era assassina, fosse como agente de ataques cardíacos, cancer, insuficiência respiratória, fosse como anfitriã de outros horrores. Há vários anos que o Ministério da Saúde tem colocado aqueles avisos, e lá estavam aquelas letrinhas em cada embalagem, em cada cartaz, em cada anúncio. Víamos os avisos mesmo quando fechávamos os olhos. Conhecíamos os avisos. Os avisos estavam profundamente encravados em nossos cérebros. Mas a negação, e a adicção, ganhavam o dia, a semana, o mês, o ano.

Muitas vezes, viciar-se em nicotina exigiu um processo de aprendizado. Nossos corpos, sendo mais espertos que nós mesmos, rebelavam-se. Tossíamos, engasgávamos, sentíamos náuseas, e talvez até vomitássemos. No entanto, através da persistência, o projeto era levado a cabo. Poderíamos ser como gente grande - os pais, os astros de cinema, ou outros ídolos. Ou poderíamos ser rebeldes. Qualquer que fosse a motivação, acabávamos conseguindo aprender. Fizemos direitinho, e nos viciamos.

Independentemente de o primeiro contato com a nicotina ser feito solitariamente ou com amigos, normalmente ocorria uma transição relativamente rápida entre experimentar e aquele ponto em que a droga ganhava o domínio. Muito rapidamente os sentimentos que desejávamos acendiam-se - fossem eles quais fossem: sentir-se "durão", "esperto","gentegrande", "in", "fora", "rebelde" - e de repente destacávamo-nos da massa das pessoas comuns.

Depois de descobrir que a nicotina podia nos dar aquilo que pensávamos precisar, não demorou muito para que a droga viesse em nosso auxílio para quase tudo e qualquer coisa. Passamos então a fumar se estivéssemos para cima ou para baixo, ou se quiséssemos ficar para cima ou para baixo, ou ainda se nem sabiamos se estávamos para cima ou para baixo.

Muito rapidamente aprendemos a fumar tudo isso. Alguns de nós conseguiram continuar, ao menos por algum tempo, com os esportes e atividades que exigiam maior esforço fisico mas, para a maioria, este tipo de atividade - e na verdade todos os nossos horizontes -  limitaram-se muito rapidamente.

Em muitos casos logo nos deparamos com a desaprovação de nosso comportamento, particularmente nos últimos anos. Havia insinuações, ou acusações, de fraqueza. Para evitar as críticas, freqüentemente escolhíamos ficar apenas na companhia de outros usuários de nicotina. Mas não havia como realmente nos escondermos de uma crescente vergonha e de um medo secreto de que uma substância estivesse assumindo o controle de nossas vidas e de nossos seres. Conforme as tentativas de parar se sucederam - mostrando-se fúteis de tempos em tempos - surgiu, lentamente para alguns e mais rapidamente para outros, um crescente sentimento de desespero. Havia um pensamento cada vez mais forte de que seríamos adictos até o dia de nossas mortes, que não importava quão boas fossem nossas intenções, a droga as atropelaria. Conforme os fracassos e derrotas se acumulavam, a auto-estima diminuía. Era uma espiral, e ela se dirigia definitivamente para baixo, levando-nos consigo.

Relembrando, vimos que fumar foi parte de uma existência totalmente ilusória. Começava frequentemente com mentiras para os pais - um fato razoavelmente sério para a maioria dos jovens. Depois, às mentiras acrescentava-se o furto de cigarros dos pais. Havia a seguir as mentiras sobre quantos cigarros fumávamos. As mentiras e logros fizeram a espiral girar cada vez mais rápido.

Oferecemos inúmeras "razões" do porquê começamos a fumar. Nossos amigos fumavam e queriamos nos "enturmar". Acaso seríamos aceitos pelos amigos se não fumássemos como eles? Nossos pais fumavam, de modo que aprendemos desde a infância que cresceríamos para poder ser fumantes. Ou: "Eu comecei a fumar com 17 anos para não engordar, minha mãe disse que era melhor fumar do que ser gordo". Para aqueles que começaram mais cedo, havia a tentativa de parecer mais velho, de se paracer com os adultos. Especialmente nos anos 40, 50 e 60, fumar era uma maneira aceitável e elegante de entrar na vida adulta, um rito de passagem comum. Fumar era parte da "boa vida" e parecia que todos os astros do cinema fumavam. Fumar também estava relacionado com o tédio - não havia nada mais útil para fazer na vida!

Por traz destas "razões" esconde-se uma cruel realidade: virtualmente nenhum de nós tomou uma decisão plenamente consciente e informada de se tornar fumante. Pessoas à nossa volta - amigos, pais e ídolos - fumavam, e nós os imitávamos por desafio, por curiosidade, ou por pura macaquice, só para ver como era.

O que quer que tenhamos "descoberto" quando começamos, essas descobertas nos fizeram voltar em busca de mais. Um sentimento de maturidade, de rebeldia, de sofisticação, de maldade, de estar "por dentro" (seja em grupos "por dentro", seja em grupos "marginais"), de ser "cabeça". Tendo um cigarro não havia necessidade de mais nada para ser charmoso, jovial, ou rebelde. Ocorria instantaneamente uma transformação - de medíocre para glamouroso, e muito mais. Encontrávamos enfim "aceitação" ou, melhor ainda, admiração e estima aos nossos próprios olhos, e aos olhos de todos à nossa volta.

Nossos corpos começaram a implorar pelas sensações físicas produzidas pela droga, assim como nossas emoções comecaram a implorar pelo sentimento de bem estar psicológico que viemos a associar à nicotina. A nicotina começou a mascarar ou a minorar alguns vagos e aborrecidos temores. "Fumar mascarava meu medo das pessoas". Ou: "fumar mascarava meu medo de me comunicar com os outros. Também mascarava meu medo de fazer alguma coisa, mantendo-me sentado com um cigarro".

Enquanto vários de nós usaram a nicotina durante anos sem se preocuparem com isto, a maioria eventualmente começou a se sentir culpada sobre a maneira como estava tratando seu corpo e/ou seu bolso. Com a crescente consciência dos efeitos da nicotina, e vendo pessoas parando à nossa volta, também veio um sentimento mais forte de "inferioridade" com relação aos nossos amigos que, aparentemente, eram capazes de parar com tanta facilidade. Ou uma falsa idéia de sermos "melhores" que os que paravam - de sermos de algum modo mais duros na "capacidade" de continuar a fumar apesar da opinião pública.
Um crescente sentimento de isolamento começou a se desenvolver a partir do mesmo "hábito" que originalmente nos havia "ajudado a nos encaixar na sociedade". Isto talvez não fosse totalmente indesejável, pois agora alguns de nós "curtíamos" o isolamento e usávamos a nicotina para levar-nos ou manter-nos neste isolamento.

Fumar veio afetar cada parte de nossas vidas: profissionalmente, esportivamente, em
nosso tempo de lazer, socialmente e sexualmente. Havia uma incapacidade de trabalhar sem a nicotina, gerada pela crença iabalável de que a nicotina era nossa grande ajuda, que ela era o combustível que inflamava a criatividade. Geralmente preferíamos sentar e fumar, ao invés de nos mexermos - ou fazer algum esporte. Atividades sedentárias combinadas com o fumo eram o foco das horas livres e das atividades sociais. Sexo sem cigarro era inconcebível.

As consequências físicas de fumar tornaram-se mais pronunciadas e mais evidentes: a perda de fôlego e da voz, ou ainda pior, o câncer e a perda de cordas vocais e pulmões. Ou a perda de um filho, como relatou uma mulher: "Acredito que fumar causou o aborto no meu quinto mês de gravidez, e assim eu perdi a única criança que gerei". Ou problemas circulatórios. E enfizema. E a lista não pára. Fazia parte da vida sentir dores no peito e nos pulmões, e saber que aquela pobre pele e as rugas que apareciam no espelho eram o resultado de fumar. Havia as roupas qeimadas, os móveis queimados, mas muito pior era o terrível medo de ficar muito doente, talvez até morrer, por fumar. E então fumávamos para mascarar este medo também.

A vida familiar também sofreu. As circunstâncias variam, mas há histórias dramáticas como esta:

"Três de meus quatro filhos são adictos à nicotina e eu perdi a custódia sobre o mais novo. Minha irremediável condição emocional, alimentada pela nicotina, foi um fator que contribuiu muito para isto. A criança era alérgica a fumaça e teve quatro convulsões febris antes que concordássemos em não fumar dentro de casa. O médico ameaçou acusar-nos, a mim e a meu marido, por maus tratos para com a criança, a não ser que parássemos de fumar perto dela".

Confrontados com tais experiências, a maioria de nós tentou parar, ou ao menos controlar o ato de fumar. Na primeira tentativa geralmente tentávamos controlar, empregando uma das várias técnicas disponíveis:

Parecia haver pouco apoio para que parássemos, ou pelo menos era assim que racionalizávamos. Amigos que ainda estavam fumando provavelmente sentiam-se ameaçados pela nossa parada e não encorajavam nossos esforços, embora poucos fizessem campanha ativa contra a tentativa de parar. Mas geralmente existia um apoio tácito de amigos e familiares fumantes, apoio este que manipulávamos para transformar em verdadeira promoção para continuar com o "hábito": Ninguém fala em parar, então por que eu deveria parar? A racionalização às vezes também funcionava assim: "Toda a minha familia (exceto minha mãe) achou impossível conviver comigo quando tentei parar, mesmo que por poucas horas, e assim eles me incentivaram a não parar".

A negação de que a nicotina representava um grande problema alimentava a continuação da adicção à nicotina. A grande divulgação de literatura sobre saúde nos anos 70 e 80 começou a ajudar a quebrar esta negação. O conceito do uso de nicotina como sendo uma adicção veio mais tarde, e tem sido menos prontamente aceito. "Eu achava que fumar era apenas um hábito detestável". Contudo nosso comportamento enquanto fumantes atestava o vício e a insanidade dos verdadeiros adictos que éramos, prontos a fazer qualquer coisa para conseguir a próxima dose. Procurando em latas de lixo, catando bitucas em cinzeiros ou mesmo nas sarjetas, andando por lugares da pesada ou dirigindo no frio da madrugada, ignorando os grandes perigos que impúnhamos a nós mesmos e aos outros. Nenhuma quota de embaraço ou de degradação parecia demais para se enfrentar na busca da nicotina.

"Era uma dequelas lúgubres noites chuvosas. Uma noite perfeita para se ficar em casa. Eu tinha acabado de remover minha maquiagem, colocado "bobs" no cabelo, umas roupas caseiras e um par de grossas meias de lã, e tinha  finalmente me ajeitado no sofá para ler o jornal. Mas descobri que não conseguia me concentrar. Tudo o que eu conseguia pensar era que queria um cigarro. E eu sabia que não tinha nenhum escondido em casa. Tentei tirar aquilo da minha mente, mas cheguei ao ponto de não agüentar mais.

"Não me preocupei nem em tirar os "bobs". Peguei uma velha capa e pus um estranho par de botas de chuva de salto alto - cor de laranja - por cima das meias grossas. Dirigi até uma loja de conveniência num shopping center perto de casa. Por sorte vi na loja alguém que eu conhecia, e tive vergonha de entrar por causa do modo como estava vestida.

"Havia um bar um pouco adiante. Parecia simpático e escuro. Entrei. Não vi nenhuma maquina de cigarros, mas havia um homem em pé no bar, fumando. Fui até ele e lhe ofereci 25 centavos por alguns cigarros.

"Ele me deu três ou quatro cigarros, mas recusou-se a aceitar meu dinheiro. Antes que eu tivesse chance de agradecer-lhe, ele me olhou com muita pena, abraçou-me e perguntou: Você está bem? Quer comer alguma coisa? Há algo que eu possa fazer por você?

"Percebi que eu parecia uma indigente, alí em pé, de "bobs" no cabelo, com roupas velhas, uma capa meio gasta, calçando botas cor de laranja sobre minhas meias de lã... enquanto pedia cigarros.

"Disse ao homem que eu estava bem, agradeci pelos cigarros e, agarrando-os, saí do bar com medo que o homem me seguisse e me visse entrar no meu carro novinho. Dirigi para casa sabendo que tinha acabado de chegar ao ponto mais baixo da minha vida".

Usávamos a nicotina para acabar com a timidez em grupos, para nos distanciarmos das pessoas, e para nos isolarmos. O uso de nicotina punha uma cortina de fumaça entre nós e aqueles que "temíamos". Muitos de nós nos  sentíamos sofisticados quando usavamos a nicotina - joviais, equilibrados, mundanos, poderosos, valentes, confiantes. Uma pessoa assim descreve o que a nicotina fazia com os seus sentimentos sobre si mesma: "Esperto. Um silencioso e carismático centro das atenção do tipo astro do rock. Misterioso. Importante. Eu estava lá". Mas outra pessoa combina o lado "esperto" e "positivo" com outro lado mais negativo: "Eu me sentia seguro, vergonhoso, equilibrado, perverso, esperto, controlado, realizado, mas acima de tudo - doente". Baixa auto-estima era definitivamente uma das nossas maiores marcas registradas.

A nicotina mudou nosso relacionamento com os outros, inclusive com os não fumantes e os defensores do anti-tabagismo. Nós nos ressentíamos com esses tipos. Eles nos deixavam loucos. Dava raiva só de assistir as mensagens de utilidade pública na TV sugerindo que pensássemos em não fumar. Sentíamo-nos descriminados. Locais públicos deixaram de ser seguros. Alguém conta:

"Às vezes eu estava comendo no balcão de um restaurante e alguém reclamava que meu cigarro o estava incomodando. Muitas vezes minha resposta era brutalmente cruel, do tipo 'Então vá seis bancos mais para lá - afinal quem é que está segurando você aqui?'"

Mesmo o ‘front’ doméstico podia virar uma zona de guerra quando se tratava do uso de nicotina. "Eu discutia com meu namorado. Parei de fumar na cama. Ele não gostava do cheiro no quarto". Outra pessoa escreve: "Meu pai não queria que eu fumasse no carro por que a fumaça entrava e ficava no sistema de ar condicionado. É claro que eu poderia tentar não fumar, mas a obsessão por usar nicotina me levava a fumar e então brigávamos". Outro ainda tinha brigas com a mulher: "Minha mulher tinha perdido seu primeiro marido devido a um câncer no pulmão, e assim tinha uma opinião muito clara sobre eu fumar: EU TINHA QUE PARAR - E PONTO FINAL".

Muitas vezes nossas primeiras tentativas de parar eram apenas para satisfazer o desejo de alguém que queria que não usássemos nicotina. Quase sempre parávamos sentindo uma total descrença de que pudesse haver vida após a nicotina. Não podíamos imaginar os mais simples gestos - como dar um telefonema por exemplo - sem um cigarro. Tarefas mais complicadas, como comer uma refeição ou fazer sexo, eram inconcebíveis a não ser que fossem acompanhadas pela nicotina.

Também estávamos cegos para os custos financeiros de usar nicotina. Poucos de nós prestamos atenção no dinheiro que estava virando fumaça. "Após minha primeira reunião de
Nicotina Anônimos eu fiz as contas: 1.100 dólares por ano e 23.000 dólares desde que comecei, 21 anos atrás. Era o suficiente para dar a entrada da casa que eu sempre quis".

Mal tínhamos uma disposição rancorosa em admitir que a nicotina tinha algo a ver com as bronquites, a sinusite, os resfriados, as tosses, a asma e a má circulação que nos cabiam. Evitávamos ler relatórios médicos que falassem sobre os efeitos da nicotina. Queimamos vários buracos nas roupas, tapetes e móveis. Queimamo-nos e queimamos nossos amigos. Ficamos com a brasa do cigarro presa entre os dedos, ou a deixamos cair em nossos colos - às vezes enquanto dirigíamos. Os que mascávamos fumo, babamos o "caldo" do tabaco em nós mesmos, em nossos carros, nossas camas e nossos amantes.
Tivemos acidentes por causa do uso de nicotina. Havia perda de tempo no trabalho e faltas por doença (algumas delas descontadas do salário). Mas éramos bons em racionalizar e fazer vista grossa para estes acidentes, jamais relacionando-os para não ver o enorme e horrível quadro que resultava. A nicotina produzia seu malefício numa lenta progressão, facilmente ignorável.

Apesar da feroz e difusa negação, ainda assim tentamos parar. Pagamos caro, tanto econômica quanto psicologicamente, por estas tentativas fracassadas: "Minha resposta emocional ao fracasso em permanecer parado era a culpa e o sentimento de impotência. Isto simplesmente reforçava o que eu já sabia, e o que era minha atitude preferida diante da vida: Eu sou um inútil / um erro / um fracasso, e não importa o quanto eu tente, continuarei sendo um inútil / um erro / um fracasso".
As reações à incapacidade de parar geralmente incluiam a frustração, a raiva de si mesmo, e uma desesperada resignação em continuar a usar nicotina para sempre. Alguns de nós ficaríamos ainda mais determinados a parar. Mas antes que isso finalmente acontecesse, voltávamos a fumar por dias, semanas, meses ou anos.

A vida de adicto à nicotina baseava-se na negação. Muitos de nós nos sentíamos infelizes e incomodados por tudo e por todos. Coisas ruins "nos aconteciam" e muita coisa negativa caía sobre nossas cabeças, metia-se em nossas vidas, ou então ficava em nosso caminho. A vergonha da adicção alimentava nossos sentimentos de má sorte, causando grande perplexidade e animosidade. Estávamos amaldiçoados pela dúvida, pela ansiedade e pelo ressentimento. A felicidade raramente era uma alternativa.

Como resultado de nosso desgosto, muitos de nós pensávamos poder alcançar a "felicidade" desde que os outros, ou as circunstâncias, "mudassem". Gastávamos enormes quantidades de energia tentando controlar os outros ou, como Dom Quixote, lutávamos com moinhos de vento. Procrastinávamos. Fugíamos para a nicotina ou outras drogas. Qualquer que fosse a nossa "solução", evitávamos confrontar a real culpada - nossa adicção.

Em eventos sociais sempre tínhamos prontamente à mão um sentimento de segurança atrás do escudo protetor da nicotina. Quando a sociedade e a lei começaram a regulamentar nosso comportamento, ao restringir os lugares aonde poderíamos fumar, passamos a ser desafiadores e loucos, ignorando as regras e desrespeitando a lei. Outra reação de muitos foi a de enfiar o rabo entre as pernas e ir para qualquer lugar satisfazer o "hábito". Qualquer que fosse a reação, era difícil imaginar como esta crescente regulamentação sobre fumar poderia ter qualquer efeito positivo em nossa auto-imagem.


As pessoas que nos cercavam preocupavam-se com nossas vidas, mas raramente isto produziu qualquer efeito. Família, crianças, pessoas amadas, amigos e colegas preocupavam-se conosco e com nossa adicção à nicotina. Interessavam-se, aborreciam-se, reclamavam, censuravam-nos, imploravam.
E nós continuávamos.

Quase todos nós exibíamos algum sintoma físico, indo do simples mau hálito, dedos fedidos, peito apertado - ao câncer, enfisema, pressão alta, problemas cardíacos. Tínhamos todos alguma coisa, mesmo que muitos de nós negassem ou tentassem ignorar os sintomas.

Para facilitar a negação, arranjamos alguns sistemas para camuflar o cheiro em nós mesmos, em nossas casas, carros, escritórios. Limpávamos e esfregávamos. Usávamos pasta de dente, gargarejos, balas, doces, gomas de mascar, perfume, colonia. Abriamos janelas, comprávamos equipamentos exaustores de fumaça, usavamos "Lysol", vinagre, amoníaco, incenso, velas perfumadas. Certa pessoa assava bolinhos:

"Quando minha mãe vinha me visitar, eu arejava a casa durante horas. Daí assava uma fornada de bolinhos de amora porque o cheiro dos bolinhos invadia a casa e a fazia cheirar maravilhosamente. Minha mãe nunca entendeu porque eu comia tanto bolinho de amora".

Mas seja lá o que fizéssemos para tentar eliminar a adicção à nicotina de nossas vidas, nós ainda fedíamos, bem como nossas roupas, nossos carros, nossas casas e nossos escritórios. Também poluíamos o meio ambiente à nossa volta jogando fora cigarros ou bitucas, esvaziando cachimbos ou cuspindo fumo de mascar nas calçadas, nos jardins, na praia, ou em qualquer outro lugar, e esvaziando em estacionamentos o cinzeiro do carro, cheio de cinzas, pontas e fósforos, ou então deixando muito do nosso lixo como um rastro imundo em todo e qualquer lugar aonde fôssemos.

A nível psicológico, nossa incapacidade de escapar das garras da nicotina tinha um impacto devastador em nossa auto-estima, em nosso respeito próprio e em nosso amor próprio. Perceber que isto era verdade foi um processo lento. Tomar alguma atitude depois de perceber levou ainda mais tempo. Muito embora soubéssemos há anos que deveríamos parar, não acreditavamos que isto viria a acontecer.

Entretanto, muitos de nós tentamos algo durante este caminho, e a variedade de alternativas foi grande. Tentamos parar na marra. Diminuímos o número de cigarros, trocamos de marca, passamos de cigarros sem filtro para com filtro, e depois para os "lights". Gastamos muito dinheiro com métodos comerciais de parar de fumar, ou gastamos somas mais modestas com ofertas de sociedades beneficientes de saúde. Usamos acupuntura, hipnose, modificação de comportamento, "jin shin jiutsu", e mascamos chicletes de nicotina.

Mas nada disso funcionou. Na verdade, alguns de nós conseguiram parar de usar nicotina por vários períodos de tempo com um ou mais destes métodos, e em alguns casos, o período sem nicotina prolongou-se por muitos meses, e mesmo anos. Mas finalmente a droga venceu. De volta às garras da nicotina, arranjamos novas negações e racionalizações, e sucumbimos novamente à nossa adicção.

Apesar de nossas melhores tentativas de negar, estávamos nos matando, e sabíamos disso. E não só nossos corpos, mas também nossos espíritos. "Eu me torturava psicologicamente por ser um fumante e por todos os anos que fumei. Eu chamaria isto de sentimento de duplicidade ou esquizofrenia". Todos nós conhecemos algo sobre este esforço de desonestidade pessoal. Dizíamos que logo pararíamos, mas sabíamos que estávamos mentindo

Nossos corpos avisavam-nos da doença, mas estas mensagens eram postas de lado, enquanto a necessidade de nicotina sobrepujava a razão. E assim continuamos. Mas gradualmente isto nos deixou doentes e cansados de estar doentes e cansados.

"Eu realmente nunca associei fumar com estar cansado e doente. Eu sabia que a minha tosse matinal era resultado direto do cigarro e que minha falta de ar à noite era porque eu tinha fumado muito durante o dia. Mas não percebia que estava doente por causa do cigarro".

Nossas mentes jogavam estranhas partidas com a nicotina. Todos estes jogos destinavam-se a perpetuar nossa negação e nossa incapacidade de assumir a responsabilidade por nossas vidas. Ao nos recusarmos a aceitar a responsabilidade por sermos adictos à nicotina, perdemos a capacidade de parar.

De algum modo, finalmente chegamos ao ponto de não  mais suportar as mentiras, os artifícios e a auto-destruição, e descobrimos nosso caminho em Fumantes Anônimos. A reação inicial pode ter sido menos do que positiva. Uma pessoa descreve assim sua primeira reunião:

"Eu pensei que eram o mais doido bando de figuras e fanáticos religiosos que eu jamais vira reunidos num único lugar. Achei que todos ali eram birutas e não podia entender porque é que eu estava alí ou o que aqueles idiotas poderiam fazer por mim, e fiquei muito incomodado com aquela coisa de Deus. Quando tentei perguntar sobre isto, disseram-me que eu não poderia fazer perguntas até o final da reunião. Mas de qualquer forma eu voltei, de tão desesperado que estava".

Mas, tendo gostado ou não de nossa primeira reunião, havia um sentimento de esperança - ou pelo menos a resignação de que esta era a última possibilidade de esperança. Havia um núcleo de pessoas, com graus variados de sucesso, todas trabalhando ativamente para viver livres da nicotina.

O sucesso não foi imediato para todos. Nem necessariamente "para sempre". Em alguns casos, um retorno ao uso de nicotina fazia parte do processo de chegar realmente ao fundo.

"Após 3 meses de
Nicotina Anônimos e estando livre da nicotina, eu tive um escorregão e fumei novamente por um mês. Este mês foi pura e simplesmente um inferno, indo de mal a pior, um completo desastre. Certo dia eu simplesmente não consegui ir mais baixo. Pensei que ía ficar louco, e acho que teria ficado se naquele instante eu não tivesse decidido que não poderia mais haver nicotina para mim".

Chegar ao fundo. Chegar aonde "a morte parece um feriado". Chegar ao ponto em que estamos dispostos a fazer qualquer coisa para não usar nicotina. Finalmente estar dipostos a confrontar a realidade dos problemas que tentávamos camuflar por trás da cortina de fumaça. Estar pronto para o processo começar. "Percebi que precisei esperar que o milagre acontecesse na hora que Deus, e não eu, quisesse".

De qualquer modo chegamos em
Nicotina Anônimos, e por mais desesperados que então estivéssemos, havia aquele medo, e a dúvida se poderíamos parar. Depois de todos os fracassos, todos os falsos começos, todas as melhores intenções, havia pouca esperança. "Eu tinha esperança, contra todas as chances, de que pudesse parar e permanecer parado".

No entanto o medo de outro fracasso pairava enorme sobre nós. O medo de nunca mais usar nicotina causara tantos fracassos no passado, que tínhamos problemas em imaginar que isso não aconteceria novamente.

"Um dia de cada vez" era realmente uma idéia totalmente nova para nós. Era diferente de qualquer outra coisa que tivéssemos tentado. Talvez sem pensar sobre isto, ou mesmo sabendo disto, a idéia de "parar só por hoje" diminuía o terror da próxima semana, do próximo mês, do próximo ano, e do resto da vida sozinhos sem nossa "amiga".

Outra idéia nova era a da impotência. Este é o primeiro passo de
Nicotina Anônimos - admitir a nossa falta de poder sobre a nicotina. A admissão requer a consciência de que, enquanto indivíduos, nós fracassamos e que a droga venceu. E requer que reconheçamos que continuaremos a fracassar. A aceitação da impotência requer o reconhecimento de que todos os fracassos e a auto-aversão do passado estão destinados a continuar e repetir-se até que acabemos nos matando. Alguns de nós já sabíamos sermos impotentes perante a nicotina ao chegarmos em Fumantes Anônimos.

"Eu era obrigado a reconhecer minha impotência por causa do total controle que a nicotina tinha sobre mim". Ou: "Não posso ignorar as inúmeras vezes que falhei ao tentar parar, portanto eu devo ser impotente perante a nicotina". Ou ainda: "Só a idéia de parar fazia eu me encolher como uma aranha num forno quente, e então eu soube que isto era maior que eu". Para outros, a consciência desta idéia veio mais tarde - "naquele exato dia, após umas seis semanas de abstinência, em que eu seria capaz de matar por um cigarro". Para outros ainda havia uma espécie de meio termo: "Eu acho que sabia que era impotente, mas não me conscientizei disto até o dia em que fiquei terrivelmente doente e, ainda assim, não consegui parar".

Independente de quando e de como viemos a aceitar nossa impotência, neste momento tivemos que nos confrontar com a idéia de um Poder Superior - o "poder maior do que nós". Para alguns, particularmente para aqueles que tinham uma firme crença ou prática religiosa, ou que tinham experiência em algum outro Programa de Doze Passos, a idéia não era difícil, ou pelo menos o conceito de um Poder Superior não era algo totalmente estranho.

Entretanto para outros a confrontação inicial com a idéia de um Poder Superior era apenas isto - uma confrontação. "Poder Superior? Vocês devem estar brincando!"; "Não me venham com suas tralhas religiosas: eu estou aqui para parar de fumar". Um dos milagres da programação é que o mesmo cético que de início pensou que esta idéia devia ser uma piada, agora diz: "Eu me ajoelho na maioria das manhãs orando ao meu Poder Superior". Outros céticos iniciais escrevem assim sobre seus pensamentos posteriores: "Paz de espírito e  minha própria sanidade dependem de eu ser capaz de me render ao meu Poder Superior". "Meu Poder Superior é ‘aquilo’ que faz com que o desejo de nicotina desapareça, e que me protege de ter de ceder diante deste desejo".

Para a maioria de nós, antes que pudéssemos admitir nossa impotência perante a nicotina, ou mesmo reconhecer o possível papel que um Poder Superior poderia ter em resgatar-nos de nossa insanidade, tivemos que "chegar ao fundo". Vários termos e expressões podem exprimir a idéia de "chegar ao fundo": Chegar ao ponto do desespero total; ou: ‘Parar de fumar ou morrer’. Ser despertado pelo "brutal estado emocional em que me encontrava". Ficar aturdido ao ponto de ousar "fazer qualquer coisa" para não usar nicotina. Estar tão desesperados, tão por baixo, tão perdidos, tão doentes, que nos agarramos com nossas mentes e tripas à idéia de que nada era mais importante do que não usarmos aquela próxima dose de nicotina. Ser capaz de viver o lema: "Não fume mesmo que seu traseiro caia!" Chegar ao fundo: definitivamente não é um lugar legal para se ficar! Para alguns de nós no entanto, é um lugar realmente baixo ao qual precisamos chegar antes que possamos considerar a idéia de "voltar para cima" e de Recuperação.

Conforme freqüentamos mais reuniões, descobrimos que nossos atitudes gradualmente mudaram. Apesar de sentir que certamente nunca nos livraríamos da adicção à nicotina, não estamos usando a droga. Aprendemos a entregar nossa vontade e nossas vidas a um poder maior do que nós mesmos. Aprendemos humildade e compaixão. Ganhamos mais auto-confiança e pela primeira vez começamos a entender o quanto é séria a adicção à nicotina - o quanto ela nos afeta espiritual e fisicamente. Experimentamos coragem e esperança. Encontramos lições de fé e tolerância nas reuniões e na vida diária. Sentimos que tínhamos que ser honestos tanto conosco quanto com os outros, para permanecermos livres da nicotina com sucesso.

A Oração da Serenidade nos lembra que não podemos modificar as vontades e os desejos de nicotina. Num sentido mais amplo, aprendemos a usar os conceitos da oração como ferramentas para lidar com as muitas coisas da vida diária sobre as quais não temos poder. Ao mesmo tempo, aprendemos que aquilo que podemos modificar somos nós mesmos, nossas atitudes, nossos pensamentos, o modo como agimos e reagimos, e que isto se aplica tanto à nossa adicção à nicotina quanto à vida em geral.

Um Poder Superior nos guia rumo a escolhas saudáveis se nos mantivermos abertos para ser guiados. Para muitos, particularmente no primeiro ano de recuperação, a principal preocupação é evitar a nicotina. No entanto, mais cedo ou mais tarde, a compulsão desaparece, e então os interesses podem convergir para desenvolver um programa espiritual perene.

Nossas vidas melhoraram desde que chegamos em 
Nicotina Anônimos. Sentímo-nos melhor e parecemos melhor. Experimentamos nossos sentimentos com mais intensidade do que nunca. Algumas vezes esta intensidade emocional nos leva a acreditar que estamos pior do que antes. Mas conforme vamos aprendendo a usar as ferramentas da recuperação em todos os desafios com que nos deparamos em nossas vidas, encontramos mais serenidade e esperança do que poderíamos imaginar. Desta consciência vem a percepção do quanto estamos melhor.

Aprendemos que pessoas boas podem fazer coisas ruins, e que não temos que nos levar tão a sério. Através da rendiçãoe da aceitação de nossa impotência, descobrimos que nunca mais teremos que ser escravos da nicotina, do tabaco ou da indústria da publicidade. Descobrimos que podemos fazer coisas difíceis, e que nossos sentimentos e medos não são únicos. Cuidamos melhor de nós mesmos quando aprendemos a viver um dia de cada vez.

Estendemos a mão a outros conforme assumimos a responsabilidade sobre nossa própria paz e felicidade. Aprendemos a acreditar em milagres. Muitos de nós ainda não estão preparados para acreditar em milagres do tipo "separar os mares", mas acreditamos em milagres num nível pessoal, pois os vemos acontecerem em nós mesmos todo dia. Experimentamos um despertar espiritual do nosso próprio ser, algo tão individual e pessoal quanto cada um de nós. Há uma nova vitalidade, uma vida, uma sensação de haver um movimento e um propósito para diante ou para cima, que jamais existiram antes.




Read NicA literature online in 16 languages.
· English
· Espanol
· Francais
· Svenska
· Dansk
· Deutsch
· Farsi
· Hungarian
· Brasil
· Portuguese
· Latvian
· Italia
· Japanese
· Polish
· Greek
· Finnish
 

Order books and pamphlets with NicA's Publications/Literature Order Form.

To download the current literature order form
(You will need Adobe Acrobat Reader® to view and print this PDF file. You can download Adobe Acrobat Reader® free of charge from www.adobe.com. Nicotine Anonymous does not endorse this or any other outside enterprise.)

[email protected]
• Send an email to order a printed paper form with NEED FORM in the subject line.
• If you have placed an order for literature, but have not yet received it, send us an email with all
pertinent information to the order so that we can track it A.S.A.P.

Please include your name and mailing address in the message body.

To order a printed paper form by regular mail
Send your written request to Nicotine Anonymous World Services, 6333 E. Mockingbird Ln., Suite #147-817 Dallas, TX 75214, U.S.A.

 
Home / About Us / Outreach / Meetings / Publications / Service / Store / Contact Us / Site Map
© 2001-2011 Nicotine Anonymous World Services
Toll Free: 877-TRY-NICA (877-879-6422)